S'ì Fosse Foco
S'ì fosse foco, arderei 'l mondo;
s'ì fosse vento, lo tempesterei;
s'ì fosse acqua; ì' l'annegherei;
s'ì fosse Dio, mandereil'en profondo
s'ì fosse papa, sarè allor giocondo,
che tutt'i cristiani imbrigherei;
s'ì fosse 'mperator, sa che farei?
a tutti mozzerei lo capo a tondo
s'ì fosse morte, andarei da mio padre;
s'ì fosse vita, fuggirei da lui:
similmente faria da mi'madre
s'ì fosse Cecco, come sono e fui,
torrei le donne giovani e leggiadre :
e vecchie e laide lassarei altrui.
Cecco Angiolieri
If I were fire, I would burn the world;
if I were wind, I would bestorm it;
if I were water, I would drown it;
if I were God, I would hurl it into the deep;
If I were Pope, I would be happy,
as I would harry all Christians;
if I were emperor, do you know what I would do?
I would chop off the heads of the lot of them.
If I were death, I would go to my father;
if I were life, I would run from him,
and I would do the same for my mother.
If I were Cecco, as I am and have been,
I would take for myself all the young and pretty women,
and leave the lame and ugly for others.
“É intolerável ser tolerado”*
.......A acção de assumir a orientação sexual, o “coming out”, é, desde os anos 70 do séc. XX, uma acção política. Assumir-se significa confrontar-se a si próprio e confrontar a comunidade com a sua identidade e diferença, libertando-se de uma homogeneização opressora e alienante. Desta forma, admitido o diferente, pretende-se o igual: o direito uniformizador. O fito máximo desta nobre demanda é a igualdade. Ora, o que persigo neste pequeno excurso é que aquela empresa está condenada à partida, pelos seus próprios pressupostos. Que a igualdade só pode existir por princípio e não como fim, e que a subsunção da sexualidade na norma só pode significar, realmente, a sua negação.
.......A primeira asserção é mais simples de apreender e deriva do paradoxo da emancipação: se existe uma expressão da sexualidade convencional face a outras inconvencionais, apenas estas últimas têm a necessidade de ser declaradas, para testemunho da sua existência. Como estas, entendidas nos prefixos científicos como homo-, bi-, trans-, são e serão minoritárias, a igualdade nunca será atingida, pois só fatias inferiores do universo democrático têm de se emancipar, ou seja, têm de sair da penumbra do armário em direcção à luz redentora. Donde, a alegada igualdade seja paradoxalmente iníqua, pois se ela se atinge pela assunção e legitimação, é um projecto prolongado ad infinitum, numa peleja sem fim. Pelo contrário, a igualdade deve existir como uma presunção e não como uma assunção, sendo a única maneira de combater o heterosexismo, pois não há uma distinção à partida, dominante ou não. Só com a presunção da igualdade, ela pode ser presentificada e realizada; como destino utópico ela é hipotecada. Cada assunção, porque na senda da aceitação, é um acto discriminatório e deve ser, por isso, repudiado.
.......Por outro lado, referindo-nos à segunda asserção, com a legitimação das expressões “anormais” da sexualidade, sucede o definhamento desta e isto porque ela é legitimada segundo regimes específicos que decidem previamente as suas próprias possibilidades. Quando se usa comummente a expressão “orgulho” quer dizer orgulho de pertença a uma casta pré-definida, mas a sexualidade pode ter diferenças abissais na mesma família erótica. A categorização científica e a legitimação política constituem, assim, meios de regulação da população, a par de outros, necessários no seio de uma sociedade liberal, como aventava Foucault na sua célebre tese sobre a sociedade disciplinar. A “normalização”, não obstante segmentada da sexualidade, consiste, portanto, na sua própria monitorização e, em limite, na sua destruição. Razão pela qual, devemos rejeitar, em protesto libertário, qualquer tipo de prefixo à nossa expressão sexual, que a detém e enfraquece. A sexualidade não preside ao fenómeno binário do sexo/género que está pressuposto no entendimento da expressão heterossexual como natural e das suas variações como perversões ou perversões normalizadas; ela é múltipla e infinita e é a força que nos pode fazer resistir à tendência universal para a “tolerância” que não é, senão, uma forma mascarada de controlo.
*«[…] a resposta ideológica mais elevada por parte de um homossexual ao massacre furtivo e feroz dos ditos “normais”, trata-se do suicídio do protagonista homossexual do “Livro Branco” de Cocteau, que acabou com a sua vida porque percebeu que era intolerável, para um homem, ser tolerado.» (trad. minha)
P.P. Pasolini (na recensão ao livro “Os Homossexuais” de M. Daniel e A. Baudry em 1974).
Amável Gesto
The Man I Love
Someday he'll come along, The man I love
And he'll be big and strong, The man I love
And when he comes my way
I'll do my best to make him stay
He'll look at me and smile, I'll understand
Then in a little while, He'll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won't say a word
Maybe I shall meet him Sunday,
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good news day
He'll build a little home, That's meant for two
From which I'll never roam, Who would, would you
And so all else above
I'm dreaming of the man I love
Gershiwn/Pina Bausch
Inspirar
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Adenda:
Pasolini, isto é, a lucidez, falta aos italianos.
Como é possível elegerem novamente Berlusconi, sujeito que se serve do dinheiro dos seus contribuintes para levar meninas em aviões do Estado para orgias na sua casa de férias na Sardenha? Para além de outras, infindáveis, já enjoativas, indecências...
Enfim, parece um povo lobotomizado, anestesiado, incapaz sequer de preservar e elevar a sua própria dignidade e cultura.
Um "lamento" pela morte de Pasolini é, sem dúvida, mais presente do que alguma vez.
Fica o link do protesto de Saramago e o meu apelo: intelectuais de todo o mundo, insurjam-se!
Notes towards a Revolution
Deleuze, Society of Control, 1990
Enjoy "Entropa"






